Volte antes da meia-noite

Por volta das sete. Naquela manhã, com ausência de sol.
Naquela manhã que ninguém esperava nada. No dia em que ninguém se importava.
Raymond foi ao trabalho. Como nos outros dias. Como nos cinco dias da semana.
Esse Raymond era famoso na cidade.
Um dos maiores advogados da cidade. Ele é o cara que chamam para salvar os bandidos. Quando você vê a notícia na teve de que um estuprador foi liberado.
Acredite, a culpa é de Raymond. Quando ver um político corrupto sorrindo para as câmeras, acredite Raymond está ali.
Raymond consegue fazer até o satanás de inocente.
Raymond, esse sujeito de quarenta e poucos, quase completamente calvo, mas sempre com os melhores ternos.
Ele tem três filhos. Dois estão entrando na faculdade. E um ainda está começando o ensino médio. Raymond sempre foi um bom pai.
Na vizinhança logo no fim da tarde você poderia ver Raymond brincando com suas crianças. As vezes passeando com a garota, a do meio. Susane. Dezoito anos.
Essa garotinha é loira como a mãe. Essa menina é alta como o pai. Seus olhos são esperançosos e medrosos como um cãozinho perdido.
Essa garota me ligou esses dias.
A esposa de Raymond já foi modelo. Já foi atriz. Você poderia ligar a televisão as nove e veria ela vestida em algum traje de época. Poderia ligar a televisão as seis e veria ela falando como uma colegial, usando uma saia bem curtinha e mascando chiclete.

As vezes no meio do jogo, naqueles quinze minutos de intervalo ela iria aparecer bebendo alguma cerveja usando apenas biquíni. Ou apareceria numa piscina fazendo propaganda de uma pasta de dente.
É isso que os homens gostam, disseram no bar erguendo as canecas.
O filho mais velho de Raymond, Natan tem essa feição de poucos amigos, tem esse estilo de bad boy, mesmo com seus vinte anos, esse garoto acredita ser um rebelde sem causa. Mesmo que seu pai tenha dado um carro zero, esse menino, acredita que é contra o sistema.
Enquanto dirige loucamente e joga ovos nos vizinhos. Esse filhinho de papai não presta atenção.
E por fim o caçula. Ele já trabalha com a mãe.
Faz algumas propagandas e papeis em novelas jovens. Anos atrás você iria ligar a televisão e ver ele usando uma fralda caída. Você ligaria a televisão e veria esse garoto branquelo com o bumbum de fora.
Mas agora ele tem quinze anos. Agora ele faz novelas. Agora ele faz o papel do irmão do galã. Agora faz propaganda de celulares.
E nesse tempo todo, tempo que passou sem ninguém perceber. Raymond continua sendo advogado.
Raymond continua passeando com a filha. As vezes de carro. Outras de moto.
As vezes vão se aventurar sem contar para ninguém.
Quando mais jovem Raymond gostava de fazer isso.
Sair por aí.
Gostava de colocar uma mochila nas costas e ir acampar com os amigos. Levar bebidas. Convidar garotas.
Essas garotas me ligaram.
Quando Raymond decidiu ser advogado seu pai ficou orgulho. Seu pai também era advogado. Sua mãe também ficou orgulhosa. Sua mãe aquela velha senhora, que Deus a tenha. Não me ligou.
Ela não teve tempo.
Faz mais de um ano que meu número está por aí colado em postes. Faz aproximadamente dois anos que ganhei meus sapatos.
Minha madrinha disse que eu saberia o que fazer.
Minha madrinha alucinava com aboboras e ratos.
Ela dizia:
– Volte antes da meia noite.
E dizia:
– Após a meia noite, fuja dos homens.
Diferente da mãe de Raymond, minha madrinha não tinha dinheiro.
Diferente da mulher de Raymond eu não sou vista com bons olhos.
Quando conheci Raymond nesse bar em que todos assistiam a sua mulher usando aquela minissaia e mascando chiclete, ele disse:
– Gostei dos seus brincos.
Ele disse:
– Posso lhe pagar uma bebida.
E disse:
– Eu te conheço?
A filha de Raymond, a jovem Susane, namora esse garoto meio nerd. Sabe, não é atlético, anda meio curvado e olhando para o chão. Esse tipo de garoto que gosta de videogames. Então ninguém desconfiou dele.
Já a mulher de Raymond, Sofia, disse que aquilo foi um acidente, obvio que não era para a garota se machucar, foi apenas uma brincadeirinha, nada com que se preocupar.
Naquela manhã, por volta das oito. Raymond saiu do prédio em que trabalha.
Atravessou a rua e parou em um carrinho de cachorro-quente.
Nesse carrinho Raymond entregou uma pasta e recebeu outra. Isso pela manhã. E aconteceu de tarde novamente.
Naquele mesmo dia, Raymond recebeu aquela ligação.
Era a polícia. Diziam algo sobre um acidente. Havia acontecido perto do bairro em que mora. Algo sobre alta velocidade, falta de atenção. E tinha sido grave.
Quando Raymond entrou no carro, eu estava lá. Sentada no banco do carona. Folheando a tal pasta.
Raymond, espantado disse:
– Mas que droga, está fazendo aqui?
E disse:
– Eu te conheço?
Quando Perguntei para a filha de Raymond se ela tinha certeza, ela chorou. Disse não saber por que duvidam da vítima. Quando ela me mostrou as fotos.
Fiquei surpresa.
Raymond não só defendia os bandidos. Raymond inocentaria satanás, por que ele era satanás.
Quando perguntei se tinha liberdade para fazer o que quisesse a menina disse que sim.
Disse enquanto soluçava:
– Não aguento mais.
E nesse choro e soluço, escondia a marca roxa em sua barriga. Escondia os dedos roxos em seu braço.
Um namoro nerd, viciado em jogos que se masturba três vezes por dia não faria isso.
Apenas um sujeito que viu a mãe ser espancada diversas vezes faria. Um ser que não fazia nada quando o pai bêbado entrava na cozinha e forçava a mulher a ficar com as pernas abertas enquanto destruía o emocional dela. Apenas uma pessoas que não fazia nada enquanto ouvia sua mãe chorar.
Apenas um cara que embebedava garotas nos acampamentos e abusava delas faria isso. A mulher Raymond disse que foi a bicicleta.
Ela disse:
– Essas crianças hoje em dia só sabem se machucar.
Ela sorria como uma escultura.
No carro, Raymond queria saber meu nome. No carro ele recebeu outra ligação. Sua mulher gritava do outro lado da linha. Berrava aos prantos dizendo que Natan havia batido o carro.
Gritava e dizia que o rosto do filho estava manchado no asfalto.
Pelo que ela disse ele estava com outros amigos jogando ovos nas casas dos vizinhos e num piscar de olhos estavam todos mortos com cacos do para-brisa atravessados no corpo. Natan foi o único arremessado para fora do carro. Uma vizinha ouviu um barulho na porta. Foi ver o que era xingando e berrando acreditava ser os meninos jogando ovos novamente. Quando abriu a porta após ouvir um estrondo viu diante de seus pés o olho direito de Natan.
Raymond estava paralisado. Não chorou. Nem levou a mão em direção a boca.
Então eu disse:
– Cinderela.
E ele repetiu:
– Cinderela.
Eu disse:
– Você não devia ter abusado de sua filha. Estendi a mão para ele e entreguei a pasta com fotos de adolescentes nuas.
Eu disse:
– Você não deveria andar com isso por ai.
Eu disse:
– Não devia ter deixado seu pai livre.
E disse:
– Ou foi você que assassinou sua mãe?
Ele olhou para o outro lado da rua. Olhando para uma multidão que se formava aonde deveria estar o carrinho de cachorro quente. Então eu disse:
– Calma, já cuidei do seu amigo.
Eu disse:
– Calma, calma.
Coloquei o dedo na frente da boca pedindo silencio.
Raymond movimentou-se para abrir a porta. E o sangue jorrou de seu pescoço. Sua mão tentou estancar o sangramento. Ele tentou dizer alguma coisa. Mas meu sapato de cristal já estava fincado em seu peito pela terceira vez.
O sangue manchou todo o para-brisa por dentro. Naquele estacionamento. O satanás de Susan Tinha sido condenado.

Em mim agulhas de bronze.

Para começar a tricotar você vai precisar de poucos materiais, que são fáceis de encontrar. Então anota aí: fios, agulhas, e um ou mais novelos de lã, com isso já é o suficiente para começar a tricotar.
Desde que ela entrou na loja, eu notei algo estranho.
Uma menina. Um pouco mais velha que minha filha. Ela ficou caminhando de um lado para o outro tirando agulhas do lugar e colocando no cabelo para segurar o coque. Segurava um espelho no qual olhava-se e após fitar seus detalhes retirava a agulha e colocava no lugar.
Ela era alta, muito, muito magra, tinha bolsas embaixo dos olhos como se não dormisse a dias. Ficou passeando pela loja esfregando novelos de lã pelo rosto. Pedi diversas vezes para ela não fazer aquilo.
Ela tinha um nariz pequeno e pontudo, arrebitado e fino. Tinha uma boca com lábios finos que quase não existiam, sua boca era um corte feito em seu rosto. O dia estava levemente gelado, mas ela usava uma blusinha leve de alças finas. Uma calça de cintura alta e um tênis all star.
Caminhou até o balcão onde eu passava o álcool e arrumava as agulhas especiais.
E perguntou:
– Por que estas agulhas estão separadas?
E perguntou apontando para o vidro embaçado:
– Posso ver aquela?
A agulha em questão era uma feita de bronze com entalhes nas laterais, uma agulha antiga, os desenhos contavam algum tipo de história. E no topo desta mesma agulha havia uma bolinha de vidro. Reluzente e transparente.
Ela segurou a agulha como algo sagrado. Passou as pontas dos dedos nos entalhes e acariciou com cuidado a bolinha de vidro. Não piscou. E então prendeu o cabelo.
Tirou do bolso de trás aquele pequeno espelho de minutos antes. E ficou olhando para ele e virando o rosto.
As bolsas de seus olhos, eram preocupantes. Fiquei pensando quando ela foi embora, o que poderia fazer uma moça como ela ficar acordada a noite toda.
Antes dela sair após ter pago a agulha em dinheiro, eu disse:
– Você precisa dormir um pouco.
Ela não virou, não olhou para trás, apenas parou com a porta semi- aberta, e disse:
– Ainda não.

Para fazer um sapato de lã. Você terá que montar setenta e cinco pontos na agulha e tricotar dez corsões de tricô. Divida deste jeito; Dez pontos em tricô, uns vinte e seis pontos em meia, depois três pontos juntos em tricô, mais vinte seis pontos em meia e outros dez pontos em tricô. Mais alguns pontos.
Tricotar até ter quarenta e um pontos na agulha, fazer o cano. Arrematar e costura.

Eu tenho minha loja a mais de dez anos. Trabalho sempre das nove da manhã as seis da tarde. Nunca cheguei a ganhar dez mil por mês. Mas naquele mês eu ganhei.
Dias após aquela estranha garota passar por lá. Diversas outras vieram. Idades diferentes. Faces diferentes, alturas, corpos.
Jovens mulheres. Mulheres de classe e idosas corcundas entravam e saiam da loja sem parar. Sempre pedindo a agulha de bronze com entalhes e uma bolinha de vidro.
E fazia o mesmo ritual.
Colocavam-na no cabelo, tiravam um pequeno espelho do bolso, da bolsa ou da mochila e ficavam olhando para o reflexo, virando o rosto diversas vezes.
Pagavam em dinheiro. Saiam e paravam na porta por alguns segundo. Presenciei isso tantas vezes que seria difícil de esquecer.
Elas paravam na porta, a porta semi- aberta, ficavam não mais que cinco segundos e saiam.
Eu estava achando aquilo tudo muito estranho.
Mas estava lucrando bem.
Já tinha ouvido falar de influenciadores digitais e como podem levar outras pessoas a comprar coisas aleatórias, então coloquei em minha cabeça que era isso que a primeira garota era. Uma influenciadora.
Já vi casos piores, onde a garotada caia de lugares altíssimos porque queriam tirar fotos como um sujeito que também caiu.
Então em minha cabeça aquilo estava sendo a coisa mais comum do mundo. Mas obvio que eu estava enganado.
Você pode ser uma pessoa cética. Pode ser uma pessoa que acredita em Deus. Mas ninguém acreditou nas notícias. Principalmente eu.
Eu estava no bar quando vi pela primeira vez.
A moça do jornal, aquela de cabelo Black Power, aquela bela morena com vestidos curtos, ela dizia algo sobre homens que vinham sendo assassinas com agulhas de tricô.
Numa das fotos que ela mostrou havia uma agulha de bronze banhada em sangue.
Numa das fotos tinha esse sujeito com a agulha enfiada no ouvido.
Ela dizia:
– A policia não tem pistas de quem possa estar fazendo isso.
E dizia:
– A única testemunha não quer dar entrevista.
E nesse momento a imagem era de carros da policia com a luzes ligadas piscando e iluminando o local do crime, ao lado do policial, de costas estava essa garota de cabelos loiros e coque, alta e muito magra. Ela olhou de relance para a câmera, mas consegui ver os bolsas abaixo dos olhos.
Derramei minha cerveja. E meus amigos riram sem entender.
Toda noite após ver aquela noticia, eu tinha esses sonhos estranhos.
Sonhava que as mulheres que compraram as agulhas estão matando homens por aí. Os sonhos começaram a virar pesadelos. E eu já não conseguia dormir.
O noticiário, dia após dia, começou a encher de noticias e imagens de homens com agulhas de tricô enfiadas no corpo. Um sujeito teve o pescoço perfurado. Um outro tinha os dois olhos arrancados, a imagem mostrava os olhos dele fincados na agulha como um espeto de churrasco. Obvio que a teve borrava. Mas a internet não tem censura.
Cada dia um novo homem aparecia no noticiário.
Foi quando passei a negar a venda das agulha que ela apareceu.
Assim que a mesma garota, alta, magra e sem lábios passou pela porta fazendo o sino tocar, meu corpo gelou.
Meus pesadelos vieram em minha mente.
Neles, essa garota invade o bar e enfia as agulhas em todos lá. Principalmente em mim.

Para fazer um gorro de lã, você tem que saber primeiro que o tamanho dependa da grossura da lã e agulha que pretende usar. No gorro você vai ter de montar setenta pontos na agulha e tricotar em ponto barra dois tricôs e duas meia por cinquenta carreiras.

Ela disse:
– Gostaria daquela agulha linda.
Disse apontando para o vidro embaçado. Apontando para a agulha de bronze dentro da caixa junto das outras.
Com a cabeça eu neguei.
Ela deixou a cabeça cair para o lado, pressionou os olhos e disse:
– Acho que o senhor não entendeu, eu quero comprar aquela agulha.
E neguei mais uma vez.
Ela colocou as mãos sobre o balcão, inclinou o corpo exibindo um enorme decote onde podia ver os ossos saindo por seu tórax por ser tão magra.
Sua respiração estava próxima, seu hálito era a mentolado. Eu disse mais uma vez não. Eu disse que sabia o que estava acontecendo. Eu disse que ela era uma assassina. Que induzia as pessoas a matança.
Eu disse:
– vou denuncia-la.
E disse:
– Saia da minha loja.
Bem devagar, bem próximo ao meu ouvido. Ela cochichou bem baixinho. Ela disse, com a voz suave, disse que nada daquilo era real, que eu estava louco, que na verdade ela sequer nem existia de verdade.
E riu.
Riu e saltou do balcão. Caminhou até a porta, balançando o quadril como uma sambista. Para segurando a porta semiaberta, poucos centímetros antes da sineta ser tocada, ela prendeu o cabelo num coque e colocou aquela agulha de bronze lá.
– você está me roubando? — Gritei dando a volta o mais rápido possível no balcão.
Corri em sua direção. Ela olhou para traz. A sineta tocou, ela sorriu e em poucos segundos não estava mais lá. Em seu lugar estava minha ex esposa.
Em sua mão tinha essa agulha. Agulha de bronze.
Ela disse:
– você chegou bêbado.
Disse no meio de lagrimas:
–Lembra quando havia bebido demais. você disse que não me amava, disse antes de me dar um tapa, você lembra?
Como ela apareceu ali?
Como ela sabia onde eu estava?
Ela disse:
– você sumiu dias depois. Dias em que meu quadril doía. Dias que minha menstruação atrasou. Entre minhas pernas ardia, queimava por culpa daquela noite que veio bêbado.
Ela disse, enquanto levantava a mão. Dizia enquanto segurava minha gola com uma força sobre humana.
Ela disse:
– Eu ainda sinto a dor.
Ela dizia coisas, enquanto o sangue espirrava em seu rosto. Enquanto a loira, parada em seu lado sorria e acenava.
Então ela disse:
– Vá dormir, bela adormecida.

Guerra de massas.

Num pequeno planetinha achatado em forma de disco. Próximo a quinta centauro norte, no universo 4.156. Os habitantes com seus corpos cobertos de peperoni, calabresa ou mussarela, se diferem entre duas raças: os Com borda recheada e os Borda sem recheio.

Claramente houve a guerra do Tira esse Catupiry Daí, onde dezenas de ComCatupirinianos foram mortos em fornalhas criadas pelos SemCatupirizistas.

Entre gritos e berros, uma pequena garotinha com mussarela ainda não derretida , escondia-se num porão e escrevia em seu diário.

Anos mais tarde, o diário acabou sendo publicado, tornando se uma grande obra que narrava aquela terrível guerra. E até os dias de hoje, O diário de ComCatupirianne Frank é um dos livros mais vendidos mundialmente.

Uma rápida história idiota sobre uma casa mal-assombrada em 2019.

Tudo começou com a foto no instagram de alguma influencer com o cabelo colorido, o nariz com rinoplastia e os braços cheios de tatuagem.

Na descrição ela dizia, entre hashtags, dizia coisas como:

“Invadi esse lugar com uns amigos.”

” Decidimos beber e nos divertir”

“Olhem o que apareceu na foto”

Dentro de um círculo vermelho, no canto superior direito, próximo ao narguilé que ela levanta nas mãos, tem esse rosto com pouca opacidade, um rosto sério e quase indefinido.

Semanas após a publicação da foto. E após uma onda de comentários negativos sobre manipulação de imagem. Ela, a influencer, foi encontrada morta, pulso bem abertos, sentada debaixo do chuveiro. Muito sangue. Um horror, disse a mãe dela.

Como nos filmes de terror, onde as vítimas são idiotas, a casa virou ponto turístico. Como nos filmes onde já sabemos o desfecho. Todos que entravam e tiravam fotos ou tuitavam sobre a maldita casa, eram encontrados com os pulsos abertos no banheiro.

A polícia tentou intervir, colocou faixas em volta da casa.

Num tuíte da semana passada, um garoto de uns quinze anos entrou na casa e pichou uma das paredes.

Ontem como num filme de terror dos anos 80, o garoto foi encontrado sem a mão no banheiro de sua casa.

E ontem a mão foi encontrada perto da pichação dentro da casa.

Como num filme de terror antigo quem narra morre também, e estou passando a faixa da polícia e entrando na escuridão da casa. #medesejemsorte #dessaeusaiovivo.

Um diário?

Enquanto escrevo um romance, penso em diversos contos.
Atualmente estou escrevendo um sci-fi. Uma aventura pelo tempo. Uma comedia. Algo do tipo.
E noto a dificuldade que é em criar um mundo, personagens, aventuras e tudo isso sendo uma grande mentira.
Sustentar essa mentira, fica cada vez mais difícil em cada momento que sou obrigado a inventar algo novo.

Fico satisfeito em reler os capítulos e conseguir entender a historia, e ver que aquilo escrito estava em minha mente. É amplamente libertador quando as palavras fazem sentido com aquela ideia inicial.

Aos poucos vai acabando e chegando no final, aquele mesmo final que você imaginou. E isso não tem preço.

Até vir a correção.

Nobel Pré-histórico.

Certa manhã enquanto caçava algum mastodonte para comer. O nosso antepassado. Usando as primeiras ferramentas e pintando paredes com sangue de animais. Esse primeiro homem numa manhã nada produtiva de caça, assiste um clarão iluminar o céu. Nessa época ele não conhecia a palavra assistir.

A forte luz que caia sobre os olhos desse homem seminu usando pele de animal, veio de um tipo de monstro, foi o que ele pensou, na frente do homem seminu havia parado essa enorme engenhoca de metal. Com fortes holofotes. Nessa época ele não conhecia a palavra holofote.

De dentro da enorme bola metálica, saiu um outro homem, até que parecido com o primeiro. Usava um jaleco e óculos de armação. Correu na direção do homem da caverna, acenando e gritando:

— Como vai, meu amigo de anos passados? — Disse o homem parando a frente do sujeito seminu. — Me chamo Ambrósio Neves, sou PhD e estou em busca de uma verdade.

O homem de jaleco, o tal de Ambrósio carregava em suas mãos, um pedaço de algo que aparentava ser um osso. Ele estendeu esse negócio sujo e quebrado para o bípede vestido de pele de animal, e disse:

— Creio que não entenderá o que vou dizer, mas tentarei ser claro. — Ambrósio dizia movimentando as mãos.

Ele disse:

— Um companheiro e eu, caminhávamos em uma expedição quando encontramos restos mortais. — Ele disse fazendo movimentos de cavar. — Foi uma expedição de dez dias, estávamos cansados quando decidimos voltar e tentar descobrir de quem era os restos mortais. — Balançou o osso na frente do rosto peludo do seu antepassado.

Ambrósio disse terem ido ao laboratório fazer testes e mais testes no pedaço velho de osso. No começo, ele disse, achávamos que era de alguma espécie de primata, e disse,  depois passamos a achar que era de algum tipo de sapiens que passou pela terra, mas numa dessas pesquisas, ele disse e sacolejou o osso no ar, descobrirmos que o DNA era de alguém do nosso tempo.

O homem pré-histórico, coçou a cabeça. Acenou e fez alguns grunhidos.

— Sim, meu amigo seminu — Ambrósio tirou os óculos para limpar. — Como deve imaginar esse osso é meu. — Disse e apontou o osso para o homem. — Enlouqueci é claro. Me tranquei em um quarto. Passei semanas, meses, anos estudando sobre a viagem temporal. Eu precisava de qualquer maneira descobrir sobre isso.

— E a sete dias, consegui criar aquilo — ele apontou para a enorme esfera parada próximo a eles. — Aquilo é uma máquina do tempo, e com ela consegui vir até aqui.

O homem da caverna grunhiu algo que parecia ser a palavra “tempo”, até aquele momento ele não conhecia aquela palavra.

O homem estava com fome e cansado de sua manhã de caça, seu estomago roncava enquanto aquele homenzinho vestindo algo falava e falava. Num só golpe o homem das cavernas levantou a clava e meteu na cabeça de Ambrósio.

O vento não sossegava. As fortes rajadas forçavam Victor a tombar para o lado e segurar seu companheiro de viagem. As fortes ondas de vento desequilibravam os dois na beira daquele penhasco.

Já fazia tanto tempo que saíram nessa expedição que o companheiro de Victor não tinha a menor esperança de encontrar algo que valha mesmo a pena.

Ele disse:

— Vamos descansar Victor, jamais encontraremos algo que mude nossa vida.

— Calma, Ambrósio. — Disse Victor. — Logo você verá que por minha causa você terá um Nobel.

— Assim espero, ou você me da um Nobel, ou me leva até a morte.

Então num momento de desiquilíbrio, os dois exploradores escorregaram pelo penhasco a baixo e caíram sobre um lamaçal.

Ambrósio disse:

—Parece que quer me matar, não é mesmo. — E tentou se levantar.

— Olhe Ambrósio. — Victor aponta para um crânio e outros ossos que estavam aparecendo por conta da lama. — Aí está seu Nobel.